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Por que o Brasil é um país de apaixonados por lúpulo?

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Você já parou para pensar, por que as cervejas lupuladas fazem tanto sucesso entre os apreciadores brasileiros de cerveja artesanal? 

Nós já trouxemos dados aqui, de nossas duas últimas pesquisas de consumo (2018 e 2020), que apontaram a IPA (a mais clássica das cervejas lupuladas) como a preferência entre os consumidores. O estilo também sempre aparece entre as primeiras posições do ranking das mais vendidas do Clube do Malte. 

Também já falamos sobre qual é o mistério por trás do sucesso do estilo IPA, essa cerveja artesanal, de alto teor alcoólico e bastante lupulada. Mas o termo “cerveja lupulada” não faz referência somente às cervejas IPAs. 

Sem dúvida a IPA foi a precursora das cervejas desse tipo no Brasil e, com a grande aceitação do público pelos aromas e amargor do lúpulo, além de surgir outras variedades do estilo IPA, começam a aparecer no mercado também uma grande variedade de cervejas de outros estilos, mas com maiores cargas de lúpulo na receita, como as Hop Lagers, India Pale Lagers, Hop Weiss, American Wheats, Summer Hops, entre outras. E, essa oferta provavelmente se dá pela procura, ou seja, o consumidor busca cada vez mais por cervejas mais lupuladas. Mas afinal, o que as tornam tão atraentes?

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Alessandro Oliveira, mestre cervejeiro e proprietário da cervejaria Way Beer, acredita que fatores como a oferta do mercado, o sensorial destacado do lúpulo e a evolução do paladar, podem estar relacionados à essa grande procura dos apreciadores brasileiros por cervejas lupuladas: “Eu acho que não é só no Brasil, mas no mundo inteiro, todos os apreciadores de cerveja artesanal acabam consumindo mais as IPAs. Nos EUA, por exemplo, em qualquer bar especializado em cerveja artesanal você vê que a maior parte dos TAPs são de IPAs. E aqui no Brasil também não é diferente, é muito comum hoje você chegar em um bar que tem umas 20 torneiras, pelo menos umas 10 são de IPA. Acho que as que normalmente já gostavam de cervejas mais comuns, dos quatro principais ingredientes, o lúpulo é o que mais se destaca quando ela passa a conhecer as artesanais. Outro ponto que considero é o desafio da evolução do paladar. Eu sempre falo que o homem, por instinto, nasce com aversão ao amargor e acidez, então todo mundo na primeira vez que toma uma cerveja, o amargor não é algo que dá prazer, mas com o tempo, acabamos acostumando e evoluindo o nosso paladar e a partir daí começamos a ter prazer tomando a cerveja amarga. E quando isso acontece é difícil voltar. Além disso as cervejarias artesanais cultuam muito o lúpulo, e isso também reflete na produção e consumo. Acho que todos esses motivos levam a maior parte dos apreciadores de cerveja artesanal a se interessarem por cervejas lupuladas.” 

Sérgio Müller, fundador e mestre cervejeiro da Molinarius Brewing Co., uma cervejaria com foco em criar e produzir somente receitas do estilo IPA, acredita que o que conquistou os apreciadores brasileiros são os sabores e aromas inebriantes do lúpulo. “Uma questão muito interessante é porque o ser humano está muito mais naturalmente disposto ao azedo que ao amargo. Inclusive nossos ancestrais quando saiam para caçar e, portanto, precisavam se alimentar de raízes, tinham no amargor uma indicação de que o alimento poderia ser venenoso. A Liberty Ale da cervejaria californiana Anchor Brewing Company é considerada a primeira American IPA, surgiu em meados da década de 70, com 47 IBU, o que era uma bomba de lúpulo para a época. De lá para os dias atuais, as IPAs começaram a privilegiar o Hoppiness, nome que representa a combinação de amargor, sabor e aroma dos lúpulos presentes na cerveja, decorrente do desenvolvimento de novas técnicas de extração dos óleos essenciais do lúpulo e adições tardias na fervura, que resultam em menos amargor e mais sabor e aroma. E no início dos anos 2000, na costa leste dos EUA, mais precisamente na região de Vermont, surgiu um novo estilo de IPA, a New England IPA. Mais uma fase de evolução do Hoppiness na IPA, com uma cerveja mais frutada (basicamente cítrica e de frutas tropicais), sedosa e aromática, com muito mais sabor e menos amargor do que a West Coast IPA. Toda esta evolução no tempo trouxe aos “lupulomaníacos” uma experiência sensorial muito mais complexa e prazerosa do que o foco no amargor das primeiras IPAs. Muito mais difícil de se adaptar ao amargo do que ao azedo, mas quando isto acontece é um caminho deliciosamente sem volta!”

Taiga Cazarine, jornalista especializada no mercado de cervejas, aponta ainda outros fatores. “Já ouvi falar de pessoas mais experts do mercado que o amargor pode ser refrescante. Mas não é só questão do amargor do lúpulo, ele traz também um herbal, floral e cítrico, notas que nos remetem ao frescor e também contribuem para que a gente se apegue a esse tipo de cerveja. Mas acredito que elas ainda estão na moda, dá a sensação de estarem. Vemos que está aumentando cada vez mais a quantidade de pessoas interessadas e na maior parte das vezes os entrantes se apegam a esse tipo de cerveja, logo vende desse estilo e dá sensação de que ela está na moda. Outro ponto, é que no início tínhamos mais pessoas mais dispostas a explicar o universo da cerveja artesanal ao consumidor. Sinto que hoje está faltando preencher a lacuna onde o sommelier de cerveja, vendo o interesse do consumidor, explica mais sobre as variedades de cervejas. E assim vendemos mais cervejas lupuladas hoje, porque é mais fácil de vender, simples assim, porque mesmo quem não entende de cerveja já captou o conceito, já está mais aberto a este conceito de cerveja e todo o restante ainda precisa de convencimento, de história e tudo mais.”

Além dos mestres cervejeiros e especialistas, nós fomos em busca de mais respostas e contamos com a ajuda de mais alguns especialistas e também apreciadores da bebida. Mas antes vamos relembrar um pouco sobre o principal responsável por isso.

O lúpulo

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O lúpulo é o queridinho de muitos cervejeiros. Principal responsável pelo amargor, também proporciona aromas em diferentes intensidades, dependendo de sua variedade, quantidade e método utilizado na produção da cerveja. Seus aromas, com notas que variam entre cítricas, herbais, frutadas, florais, de pinho, condimentadas e até picantes, fazem parte da característica de muitos estilos de cerveja. 

O que é Lúpulo? – conheça as variedades mais populares

Séculos atrás o lúpulo era muito utilizado como uma planta medicinal e foi introduzido na produção de bebida como um substituto do gruit – uma mistura de ervas usadas para aromatizar e dar um sabor especial à cerveja – devido aos seus ótimos resultados na conservação da bebida e também para o aroma e equilíbrio do sabor da bebida. Isso foi descoberto ainda no século XI, na região de Hallertau (atual Alemanha) por uma freira chamada Hildegard von Bingen.  

O lúpulo é uma planta do tipo trepadeira, que pode passar dos sete metros de altura. Após seu crescimento, ela produz pequenas flores nos formatos de cones. Para a produção de cerveja é utilizada apenas essa flor. É nela que estão as glândulas secretoras de um líquido amarelo, conhecido como lupulina, que dá à bebida as características lupuladas que conhecemos. Entre as resinas destacam-se os alfa-ácidos e os beta-ácidos, que contribuem respectivamente com o amargor e com os aromas da cerveja.

Mas afinal, por que o Brasil é tão lupulomaníaco?

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Assim como os mestres cervejeiros e especialistas Alessandro Oliveira e Sérgio Müller explicaram, há vários fatores que tornam as cervejas lupuladas tão apreciadas pelo público cervejeiro do Brasil, e a combinação de amargor, sabor e aroma, assim como a evolução do paladar, são alguns pontos apontados por eles que nos levam a entender essas cervejas são tão aclamadas. 

Mas nós buscamos saber um pouco mais e conversamos com mais cinco apreciadores (e não somente das lupuladas), que também são especialistas quando o assunto é cerveja. E fizemos a seguinte pergunta para eles:

O que você acha que tornou a cerveja lupulada tão aclamada pelo apreciador brasileiro de cerveja artesanal? O que as tornam tão atraentes?

Felipe Franco da Rocha – biólogo, cervejeiro caseiro, entusiasta e defensor da cultura cervejeira: “Penso que nosso clima mais quente favorece muito a apreciação de cervejas lupuladas, uma vez que o lúpulo é uma erva com características sensoriais muito refrescantes, e por vezes cítricas, remetendo a frutas tropicais. Além disso, seu amargor dá à ela intensidade suficiente para encarar um bom churrasco em uma harmonização. Do ponto de vista científico, estamos em uma excelente fase para as cervejas lupuladas. Os avanços tecnológicos dão um maior entendimento dos óleos aromáticos do lúpulo e as melhores maneiras de extrair e manter cada um desses óleos na cerveja durante a produção. Além disso, vemos um aumento do cultivo de lúpulos com qualidade satisfatória em lugares que, antes, eram improváveis. Terroir diferentes e o melhoramento genético permitem novas variedades, que possibilitam novas combinações de óleos aromáticos e, portanto, novos sabores a serem explorados. Isso fomenta o interesse pelas cervejas lupuladas. E essa tendência deve continuar por bastante tempo.”

Adriano Luiz Clemente de Souza Silva – dono do perfil no Instagram @ipacondriaco: “Quando a pessoa inicia no mundo da cerveja artesanal no primeiro gole de uma cerveja lupulada, acaba se impressionando com o aroma cítrico, que não está acostumado a ter nas cervejas de massa. Além disso, o lúpulo representa o movimento da cerveja artesanal, quando a pessoa começa a tomar as cervejas mais lupuladas acaba se sentindo um real consumidor de cerveja artesanal. A utilização de grande quantidade de lúpulo na cerveja é muito mais que apenas amargor, deixa a cerveja refrescante e muito aromática, por esse motivo que acaba agradando os diversos paladares e caindo muito no gosto dos consumidores.”

Enzo Molinari – homebrewer, beer sommelier, sócio-cervejeiro da Funky Folks e colunista da revista: “Assim como acontece em diversos outros setores de consumo no Brasil, nós também importamos esse hábito de consumo lupulado do mercado americano. Com as sours houve movimento semelhante. Além disso, por se tornar culturalmente a porta de entrada da cerveja artesanal, é quase obrigatório que todas as cervejarias e bares tenham as lupuladas no seu portfólio. Como o mercado cervejeiro é inflado com cervejas lupuladas, cada vez mais pessoas têm acesso e o consumo aumenta proporcionalmente, tornando um círculo virtuoso de produção e consumo. Neste sentido, é possível fazer um paralelo com as mainstreams que inundam as prateleiras.”

Carla Lizandra Saraiva da Silva – dona do perfil no Instagram @apaixonadaporlupulo: “Quando compramos uma cerveja, a primeira coisa que nos chama a atenção é a identidade visual de uma garrafa ou lata, mas quando você abre uma cerveja, o que te faz querer beber é o aroma, e as lupuladas têm esse poder de nos fascinar com os diversos aromas provenientes desse ingrediente maravilhoso chamado lúpulo. Como uma apaixonada por lúpulo que sou, não vejo outro estilo que me agrade mais, particularmente prefiro o amargor das cervejas, e pelo jeito esse número de apaixonados só tem crescido no Brasil, pois as IPAs já são as preferidas do mercado cervejeiro nacional.”

Nilda Joana da Silva – dona do perfil no Instagram @garota_ipa: “Dificilmente alguém inicia nas artesanais provando uma IPA. Afinal, nem todo mundo gosta de cerveja amarga, isso até provar e poder sentir todo seu aroma, sabor e frescor. Eu, por exemplo, gosto muito de cervejas lupuladas, quanto mais IBU mais eu aprecio. Na minha opinião é essa explosão de aromas e sabores que tornam essas cervejas tão atraentes.  É só tomar o primeiro pint de IPA para ficar impressionado, pois toda essa potência do lúpulo nunca foi percebida em outras cervejas antes.”

É impossível encontrar apenas um único fator que responda a pergunta de porquê as cervejas lupuladas são tão apreciadas no Brasil, mas podemos concluir que muito se deve ao poder aromático do lúpulo, unida à uma receita de cerveja refrescante, equilibrada, que entrega amargor, mas está em equilíbrio com o todo. A combinação aroma, sabor e amargor, sem dúvida, é o que conquistou os paladares brasileiros.

E para você conhecer, comparar e também tentar desvendar todos os mistérios por trás do sucesso das cervejas lupuladas, preparamos neste mês uma seleção do Beer Pack, somente com cervejas, nas quais o lúpulo é o anfitrião da festa. São quatro estilos diferentes e todos  os rótulos são feitos com o lúpulo Centennial de Moxee como principal, em um blend especial com outro tipo de lúpulo, diferente em cada receita. É uma excelente experiência lupulada para você praticar, entender tudo o que esse importante ingrediente pode oferecer à bebida e praticar ainda mais o seu lado “lupulomaníaco”. 

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Escrito por Ana Paula Komar

Jornalista, apaixonada por história, curiosa por culturas e apreciadora de boas cervejas!